“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, disse o presidente Lula (PT) na ONU, nesta terça-feira (22), em discurso marcado por constantes referências contrárias à interferência externa na América Latina. Sem mencionar nominalmente os Estados Unidos, o presidente falou reiteradamente sobre as ações do governo de Donald Trump.
“Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais”, disse o petista. “Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para integração entre vizinhos. A democracia está em xeque”, seguiu, após mencionar interferências praticadas pela “maior potência militar do mundo”, os EUA.
O tema permeou sua fala e voltou com maior clareza ao final. Lula mencionou as eleições do próximo dia 4, nas quais concorre à reeleição e tem no senador Flávio Bolsonaro (PL) o seu maior adversário. Afirmou que o país terá um pleito transparente e competitivo.
“Um pleito no qual os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão”, seguiu. E acrescentou, em referência indireta à família Bolsonaro: “Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país.”
“Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”, continuou o presidente, que adendou que “a democracia brasileira pertence aos brasileiros”.
Ele não foi aplaudido pela delegação dos EUA presente na plenária das Nações Unidas, ainda que depois, quando Trump discursou na sua sequência, tenha aplaudido o americano, com pouco entusiasmo.
A fala do brasileiro, arredondada com cuidado durante a tarde desta segunda-feira (21), teve forte tom eleitoreiro. Lula fez menção a diversos feitos de seu terceiro mandato em Brasília, como programas de combate à desigualdade de gênero e combate ao crime.
E se referiu a si próprio como “um operário eleito três vezes presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome”.
Nesse sentido, ele também fez breve menção às tarifas impostas por Washington a produtos brasileiros, tema central na mesa de debate dos dois países. Lula disse que, a despeito do chamado tarifaço, o Brasil bateu novo recorde de exportações este ano. Também lembrou o Pix, ferramenta de pagamentos instantâneos do Banco Central que foi alvo de críticas dos EUA.
Ele abriu os discursos de chefe de Estado no evento, função que cabe tradicionalmente ao Brasil. Como era esperado, também falou sobre o crime organizado, bandeira dos EUA nas Américas: “O Brasil não subestima o crime organizado. Estamos preparados para enfrentar os criminosos. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas armas.”
Mais uma vez, tratava-se de uma referência indireta a Washington, que tem promovido ataques a embarcações no Caribe, que afirma serem de traficantes.